Villa Romana de Rio Maior

No Concelho de Rio Maior são vários os locais onde temos encontrado vestígios da civilização romana mas ainda não se procederam a trabalhos de campo sistemático em todo o território concelhio que poderão dar origem a novas descobertas.

Existem ainda referências orais e históricas que não foram possíveis localizar ou confirmar a sua origem como romana.

Do que conhecemos, até ao momento, da ocupação humana no tempo dos romanos, na área que hoje corresponde ao território de Rio Maior, pensamos que o mesmo estaria dividido em pequenos casais, herdades de pequena e média dimensão, uma ou outra aldeia e ainda algumas grandes propriedades (latifúndios) como a Villa de rio maior, que pertenciam a importantes e poderosos senhores, os quais viviam preferencialmente na cidades onde pertenceriam à classe dirigente.
Estas villae funcionavam sobretudo como casas de campo e principal fonte de riqueza do seu proprietário.
No nosso concelho foram explorados todos os recursos que o solo permitia: produtos agrícolas (cereais, leguminosas, etc.); árvores de frutos, olivais, vinhas; azeite, vinho; criação de diverso tipo de animais e gado; fabrico de cerâmica; tecelagem; mineração e fabrico de utensílios de metal, em especial ferro; exploração do sal; madeiras; pedreiras; etc.


VILLA ROMANA DE RIO MAIOR


A DESCOBERTA


O que levou à sua descoberta em 1983 foram referências num livro da história de Rio Maior, de Francisco Pereira de Sousa, onde ele nos conta que no séc. XIX um lavrador ao lavrar o seu campo puxou para fora da terra dois fustes de coluna em mármore, um deles com cerca de 4 metros de comprido, tendo ainda encontrado fragmentos de mosaico. Outro agricultor ao andar a cavar encontrou uma sepultura de tijoleira.
Com base nestas informações os Serviços de Arqueologia procederam a uma prospecção de campo, ou seja, percorreu os terrenos vazios em redor e na cidade de Rio Maior até se localizar um com vestígios romanos à superfície. Estes chegam à superfície do terreno trazidos pelos arados e pelas enxadas que revolvem a terra no decurso dos trabalhos agrícolas, puxando para cima os restos das paredes e das telhas dos telhados que caíram sobre o pavimento da casa.
Em 1992 e 1993, como começavam a surgir interesses imobiliários para esta zona e mesmo a necessidade de alargamento do cemitério os Serviços de Arqueologia abriram uma vala de sondagem abrangendo todo o terreno.
Nesta sondagem descobriram-se uma grande quantidade de mosaicos e várias peças de onde se destaca a Ninfa.
Estes vestígios indicaram-nos que estávamos perante uma Villa Romana muito importante e bem conservada.
Só em 1995 se reuniram condições necessárias para o início das escavações em toda a área, tendo sido realizadas 4 campanhas sazonais de trabalhos arqueológicos (de 1995 a 1999).


O QUE É UMA VILLA


A Villa romana rústica ou rural funcionava muitas vezes como casa de campo de um importante senhor romano, normalmente um magistrado de uma cidade.
Era uma grande quinta com muito terreno em seu redor (latifúndio), onde se exploravam todos os recursos que a terra permitisse: produtos agrícolas (cereais, leguminosas, azeite, vinho, etc.); mineração de Ferro e fabrico de utensílios de metal; criação de animais; fabrico de cerâmica; tecelagem; produção de sal (para conserva de alimentos e tratamento de couro), etc.
Produziam sempre em maiores quantidades do que precisavam, para terem produtos em excesso que depois eram vendidos às cidades, no caso de Rio Maior a nossa Villa poderia fazer comércio com Eburobritium (Óbidos), Collipo (Leiria), Scallabis (Santarém) e com exército romano.
Ainda hoje as cidades não conseguem sobreviver sem o campo, porque é este que as alimenta.


A villa era composta de três áreas principais:


Pars urbana – correspondia à zona mais luxuosa da construção onde vivia o proprietário e a sua família


Pars rustica - onde se encontravam instalados o capataz e os trabalhadores da herdade


Pars fructuaria - onde se situam os armazéns em que se guardavam os produtos produzidos, a adega, os lagares, estábulos, pocilgas, galinheiros, coelheiras, palheiros, vacaria, padaria, correeiro, ferraria, e outros serviços que fossem necessários à produção de bens e manutenção da villa.


Os terrenos pertencentes a uma herdade (Villa) destas, eram tão grandes que parte deles eram alugados a pessoas que os quisessem trabalhar, formando pequenos Casais familiares.

AS RUÍNAS

A villa como a encontramos data do séc. III/IV, mas existem vestígios de uma construção anterior, talvez do séc. I.
A Villa foi abandonada no séc. IV no período das invasões barbaras.
Nesse período foi saqueada e ainda serviu de abrigo ou habitação temporária, pois uma das salas mais importantes, a sala circular revestida a mosaico, serviu de lixeira.
Até ao presente momento dos trabalhos arqueológicos apenas estamos a explorar parte da Pars Urbana da Villa, ou seja, a área onde o proprietário vivia com a sua família, mas desta área senhorial ainda nos falta pôr a descoberto outras zonas da casa, localizar o templo e os banhos ou termas, etc.
A inexistência de paredes deve-se ao facto de, pelo menos desde o séc. XII, o local ter servido como pedreira para os habitantes da aldeia de Rio Maior.
A Villa já estava coberta com uma boa camada de entulho e detritos acumulados ao longo de centenas de anos, mas mantinha paredes à superfície do solo. As pessoas limitavam-se a seguir as paredes para as desmantelarem, incluindo as fundações.
Isto porque era muito mais prático e barato vir aqui buscar a pedra do que a comprar a uma pedreira ou ter de a ir buscar à serra.

O ESPÓLIO

Até ao momento o espólio recolhido no decurso das escavações, é essencialmente composto por peças indicadoras do grande luxo e riqueza dos proprietários desta Villa.

São inúmeros os fragmentos de placas em calcário comum e cristalino, de mármore dos mais variados tipos e cores, usados na ornamentação dos rodapés e outras partes arquitectónicas do imóvel.

Alguns destas peças são frisos profusamente decorados com gravações a baixo relevo. As colunas (bases, fustes e capiteis) também eram feitas com estes tipos de rocha.

Outro elemento constante em todas as salas e corredores postos a descoberto pelas escavações, são os fragmentos de estuque pintado que fariam parte da decoração parietal da Villa.

O chão de todas as dependências e áreas de circulação, até ao momento descobertas, são pavimentadas com mosaico. Este é de estilo geométrico associado a alguns motivos vegetalistas e fitomórficos estilizados.

Existe, também, um grande número de tesselas de pasta de vidro com uma rica e vasta gama de cores, que deveriam ter sido usadas em composições ornamentais de paredes ou nichos.
Temos ainda vários objectos de luxo, como contas de vidro pertencentes a colares ou brincos (?), fragmentos de terra sigillata, (cerâmica importada que constituía o serviço “chique” da época), na sua maioria de produção norte-africana, fragmentos de vários objectos de vidro (copos, taças, jarros, unguentários, etc.), duas patas de felino, aladas, em bronze, que fariam parte da base de um objecto ainda não determinado (mesa, baú, suporte ?), uma asa de um jarro de bronze e algumas moedas.
Outro elemento indicativo do elevado poder económico deste patrício romano observa-se na presença de várias peças de estatuária. Sabemos que “a escultura era uma presença constante no Mundo Antigo: nos templos, nos monumentos públicos, nas ruas e praças urbanas, nos jardins privados das vivendas mais ricas” (Souza, 1986). Até ao momento foram descobertos fragmentos de, pelo menos, cinco estátuas, uma delas de escala natural, e ainda uma peça quase intacta (faltam muito poucos fragmentos), a Ninfa fontanária de Rio Maior.
Também foram encontrados fragmentos de objectos comuns, como fundos de ânforas, fragmentos de grande potes de armazenamento (Dollia), pesos de tear, cerâmica de uso comum (tachos, panelas, vasos, etc.).




A NINFA DE RIO MAIOR

É uma peça emblemática para os riomaiorenses por existirem fortes probabilidades de se tratar da personificação de uma divindade tutelar do nosso rio. Sabemos que o rio Maior foi sacrilizado e alvo de culto, pelo menos desde o período romano, cujas reminiscências chegaram até nós através de uma festa anual, a festa do Bom Verão, realizada junto das suas nascentes, na Segunda-Feira de Pascoela, nos tempos modernos transferida para o domingo.
Trata-se de um evento familiar espontâneo, sem organização prévia, nem apropriação pela igreja católica, com vários jogos em redor da água, entre outros.

Nas Bocas de Rio Maior são muitos os sítios com vestígios de ocupação humana, desde o paleolítico superior até, praticamente à actualidade. Defronte às nascentes do rio Maior, nos anos 30 do séc. XX, foram encontrados vestígios romanos que poderiam ter pertencido a um pequeno templete.
Esta estátua representa uma figura feminina reclinada de olhos fechados, semi desnuda, com o manto (Peplos) cobrindo apenas o baixo ventre. O braço direito encontra-se cruzado sobre o seio do mesmo lado, repousando a mão respectiva sobre o ombro esquerdo, o qual serve de apoio à cabeça adormecida. Enquanto que o esquerdo encontra-se abandonado sobre o leito de rochas e calhaus arredondados, sobre o qual repousa o seu corpo, a respectiva mão está pousada sobre um vaso tombado (cantharus). O cantharus foi perfurado até à base da estátua, onde seria fixada uma canalização, para que pela boca do vaso jorrasse água.

A perna direita estendida, deixa ver o pé que emerge do “peplos” e a esquerda, dobrada pelo joelho, esconde o respectivo pé sob a perna contrária, obrigando, deste modo, a uma elevação ligeira do joelho direito.




1 comentário:

  1. Lindissima villa romana. Rio Maior é uma localidade muito bonita.

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    Abraço
    Lena

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